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Como surgiram as grande denominações modernas do judaísmo?

As denominações religiosas modernas do judaísmo emergiram como resposta dos judeus a dois processos transformadores em curso na Europa do século XVIII: o Iluminismo e a emancipação. O Iluminismo revolucionou o pensamento secular europeu ao introduzir o método científico na produção de conhecimento, enquanto a emancipação transformou a relação entre o indivíduo e o Estado, garantindo direitos universais a todos os cidadãos. 


Esses dois grandes movimentos tiveram um impacto singular na história judaica, transformando a forma como os judeus se relacionavam tanto com sua tradição quanto com a sociedade ao seu redor. A emancipação concedeu aos judeus uma certa igualdade em relação aos demais membros da sociedade, conferindo-lhes o status de "cidadãos". Com o acesso aos direitos civis, vieram também o enfraquecimento das barreiras sociais que mantinham os judeus como um grupo étnico claramente distinto do restante da população.


Diante dessa nova realidade, surgiram novas questões para a comunidade judaica europeia. Se os judeus agora eram cidadãos de seus países, ainda seria apropriado continuar rezando pelo retorno a Sião? Qual deveria ser a língua dos sermões nas sinagogas: o idioma local ou o iídiche? E nas orações, deveria-se usar o hebraico ou o vernáculo? Até que ponto a arquitetura das sinagogas e o estilo da liturgia judaica, como a inclusão de música e coral, deveriam refletir a cultura religiosa europeia?


Do ponto de vista intelectual, o método científico de produção de conhecimento passou a ser aplicado também ao estudo da bíblia hebraica e do talmud, um movimento conhecido em alemão como Wissenschaft des Judentums, ou "Ciência do Judaísmo". Os textos da tradição judaica começaram a ser examinados com o mesmo rigor metodológico utilizado nas demais disciplinas das ciências humanas. Questões sobre a origem e composição do texto bíblico, bem como as influências de outras culturas na formação do povo de Israel antigo e do judaísmo rabínico, começaram a ser investigadas de maneira sistemática.


As consequências dessa nova abordagem foram profundas gerando tensões internas irreconciliáveis no seio da comunidade judaica. Se o cânone judaico é uma expressão da cultura de um pequeno povo que habitava a região do antigo Oriente, em que medida esses textos permaneceriam sagrados? Se a autoria Mosaica ou divina do texto não é uma premissa que todos compartilhavam, qual seria a autoridade que eles possuem para reger a vida do indivíduo e da  comunidade? 


Na primeira metade do século XIX, o movimento Reformista na Europa emergiu como a primeira resposta organizada de lideranças rabínicas e intelectuais às novas questões do tempo que se impunham. Esse grupo pretendia reformular concepções e práticas da tradição judaica para que estas refletissem os valores e o conhecimento científico da sociedade moderna.  Contudo, até que ponto essas mudanças deveriam ser implementadas e de que forma,  estava longe de ser consenso. De fato, havia diversos pontos de  discórdia entre os primeiros reformistas. Alguns desejavam rezar na língua local, enquanto outros preferiam manter o hebraico como a língua universal do povo judeu. Havia aqueles que queriam remover dos livros de oração as menções ao Templo, à ressurreição dos mortos e à vinda do Messias, enquanto outros defendiam a manutenção desses elementos. Também havia divisões entre os que desejavam preservar práticas tradicionais, como a observância da kashrut, e aqueles que consideravam essas práticas arcaicas e ilógicas.


À medida que os reformistas se organizavam, articulando com clareza seus princípios e práticas, as dissensões internas aumentaram, provocando reações que levaram à formação de outros movimentos. Durante muitas décadas, o mundo judaico coexistiu com duas grandes divisões: de um lado, os reformistas, e, do outro, "todo o resto". No entanto, já no início do século XX, é possível identificar um terceiro grupo com clareza.


Em oposição aos reformistas, esse grupo defendia a centralidade da halachá (lei judaica) na condução da vida do indivíduo e da comunidade. No entanto, reconheciam que a lei é fruto de um processo social e histórico, sendo, portanto, suscetível a adaptações, mudanças e reinterpretações. Essa ideia não era estranha às fontes clássicas judaicas. Eles apresentavam incontáveis exemplos na bíblia hebraica, no talmud e nos códigos de leis elaborados por rabinos em diferentes épocas que atestavam a evolução da lei judaica. Para esse grupo, a evolução da lei era intrínseca à própria tradição judaica, que precisava responder às novas questões que surgiam a cada geração.


Essa abordagem foi o fundamento do judaísmo Conservador que floresceu na América do Norte e levou à criação do Jewish Theological Seminary. O currículo dessa escola rabínica se distanciava das yeshivot européias que focavam exclusivamente no estudo do Talmud e da lei codificada. O seminário surgiu com o objetivo de prover uma educação equivalente à das melhores universidades europeias e americanas, aplicada às disciplinas do judaísmo, como bíblia hebraica, talmud, história judaica, língua hebraica moderna e filosofia judaica. Além de um currículo teórico robusto, foram incluídas disciplinas práticas voltadas ao exercício do trabalho rabínico em suas diversas funções comunitárias.


Em contraste com os movimentos Reformista e Conservador, que representaram uma resposta dialógica à modernidade, consolidou-se outra expressão do judaísmo moderno: a Ortodoxia e sua versão mais radical, a Ultra-Ortodoxia. De modo geral, esses grupos se posicionaram pela rejeição do mundo secular e, em resposta às mudanças do tempo, intensificaram suas práticas e ergueram barreiras ainda maiores em relação à sociedade moderna. Essas comunidades buscaram se concentrar em bairros e cidades onde formaram populações significativas, como Mea Shearim e Bnei Brak, em Israel, ou Williamsburg e Crown Heights, em Nova York. Nessas localidades, construíram seus próprios sistemas educacionais e estruturas comunitárias, minimizando ao máximo o contato com a sociedade em geral. A célebre declaração do proeminente rabino Chatam Sofer (1762-1839), uma das figuras mais importantes da Ultra-Ortodoxia, "o novo é proibido pela Torá", ilustra de forma emblemática a postura desse grupo. Para eles, a rejeição ao novo é a única resposta judaica legítima às transformações e desafios sociais.


Em linhas gerais, a diferença entre esses três movimentos pode ser resumida pela forma como cada um entende a lei judaica, a halachá. O movimento Reformista, desde sua origem, enfatizou a liberdade do indivíduo em decidir autonomamente sua conduta religiosa. Idealmente, essa decisão deveria ser fruto de uma consideração cuidadosa e informada dos textos da tradição. Para esse grupo, a halachá é vista como um importante gênero literário produzido pelo povo judeu, cujo estudo certamente oferece insights valiosos sobre a tradição, mas que não detém autoridade máxima sobre como o indivíduo ou a comunidade devem orientar suas vidas.


No espectro oposto, encontram-se a Ortodoxia e a Ultra-Ortodoxia, que veem na halachá a fonte de autoridade máxima na vida do indivíduo e da comunidade. Para esses grupos, o povo judeu teve um momento revelatório único em sua história aos pés do Monte Sinai. A partir desse evento fundacional, a tradição foi transmitida por uma cadeia ininterrupta até os dias atuais. Para eles, a lei judaica, conforme codificada ao longo dos séculos e interpretada pelas autoridades rabínicas de cada época, reflete os desígnios últimos de Deus para o povo judeu. Seus transmissores passaram a tradição de forma incorruptível, pois eram profetas ou estavam imbuídos do espírito profético (Ruach Hakodesh). Como "tudo" foi dado no Monte Sinai, a tradição, segundo essa visão, está isenta de historicidade ou da influência de seus principais atores: os seres humanos.


O Movimento Conservador, posicionado entre a Reforma e a Ortodoxia, considera a halachá um elemento central na vida do indivíduo e da comunidade. No entanto, diferentemente da Ortodoxia, vê a halachá como uma expressão legítima dos valores de diferentes comunidades judaicas ao longo do tempo. A diversidade de códigos haláchicos testemunha essa riqueza de práticas e jurisprudência. Como o próprio nome sugere, halachá – que significa "forma de caminhar" – é um processo dinâmico, que exige o envolvimento contínuo de cada comunidade com as questões pertinentes de cada geração. Para guiar as comunidades em suas práticas, o movimento estabeleceu um fórum (Committee on Jewish Law and Standards), composto por rabinos e acadêmicos, onde são debatidos os temas relevantes apresentados pelas comunidades ou seus membros.


Na segunda metade do século XX, uma das principais questões que esteve no centro das discussões de todos os movimentos judaicos — especialmente nos Reformista, Conservador e Ortodoxo — foi o papel das mulheres nos rituais públicos e sua participação na liderança leiga e religiosa das sinagogas. Tradicionalmente, as mulheres ocupavam-se dos rituais religiosos do lar,  enquanto aos homens cabia a liderança da comunidade. No entanto, a realidade sociológica das mulheres nos países ocidentais transformou-se drasticamente nos últimos cem anos. Nesse processo, as mulheres conquistaram posições de destaque e liderança em todos os segmentos do mundo secular. Diante disso, como responderiam as comunidades judaicas ao redor do mundo? E as instituições de ensino? Permaneceriam restritivas às mulheres ou ofereceriam novas possibilidades?


Nos mundos Ortodoxo e Ultra-Ortodoxo, as mulheres são educadas separadamente dos homens. Enquanto eles são treinados desde cedo nos textos sagrados da tradição, especialmente no estudo do talmud, a elas cabe aprender o suficiente para gerirem um lar judaico. As mulheres não são encorajadas a ingressarem na universidade ou mesmo possuírem uma profissão. O conhecimento laico ensinado é o mínimo necessário para atender as exigências das autoridades públicas locais de educação. No âmbito da sinagoga, as mulheres não lideram rituais públicos relevantes, não exercem liderança rabínica e, raramente, ocupam cargos oficiais na liderança leiga das instituições. 


Em contraste, os movimentos Reformistas e Conservador, ao longo do tempo, criaram comunidades e instituições onde homens e mulheres pudessem aspirar igualmente às mesmas posições de liderança religiosa e leiga.  Nas suas instituições de ensino superior, as mulheres foram aceitas desde o início em programas avançados nas mais diversas áreas do conhecimento judaico. Em 1935, na Alemanha, Regina Jonas se tornou a primeira mulher a ser ordenada rabina pelo movimento Reformista, sendo pouco tempo depois assassinada pelos nazistas. Em 1972, Sally Prisesand se tornou a primeira mulher nos EUA a receber o diploma rabínico, e, em 1985, Amy Eilberg foi ordenada rabina pelo Movimento Conservador. 


A ordenação de mulheres como rabinas e sua ascensão à liderança religiosa em inúmeras comunidades ao redor do mundo marcou, sem dúvida, um novo capítulo da história judaica. Embora o talmud possua relatos anedóticos de mulheres versadas na lei judaica, pela primeira vez elas passaram a aspirar às mesmas instituições de ensino e posições de liderança que os homens. Essa transformação refletiu os valores modernos que moldaram nossa sociedade e exigiram uma resposta das diversas comunidades judaicas, seja pela incorporação desses valores, seja pela sua rejeição. 


Ao longo das gerações, os judeus mantiveram um diálogo constante com os valores e transformações do mundo ao seu redor. As correntes modernas do judaísmo — Reformista, Conservadora e Ortodoxa/Ultra-Ortodoxa — representam respostas diversas às novas realidades políticas, sociais e intelectuais que emergiram com a modernidade. Seja pela rejeição ou incorporação dessas mudanças, o judaísmo resultante desse processo foi transformado. Aqueles que optaram pela rejeição estabeleceram um ponto de corte  no tempo, determinando onde o judaísmo 'legítimo' deveria ser congelado. Já aqueles que acolheram mudanças e críticas argumentaram que a abertura para novas ideias é, na verdade, a essência da tradição judaica. É justamente essa natureza dinâmica e curiosa que permitiu à tradição se renovar e permanecer relevante, inspirando o povo judeu ao longo de milênios. 


Lucca Myara é o rabino da Congregação Israelita Mineira.

 
 
 

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