O que é judaísmo: religião ou etnia?
- luccamyara
- há 5 dias
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Apesar de aparentemente simples, esta questão revela-se mais complexa do que sugere inicialmente. As categorias 'religião' e 'etnia' não existiam enquanto conceitos independentes quando a tradição judaica emergiu na antiguidade. O judaísmo preservou e transformou elementos de todas essas dimensões ao longo dos séculos, criando uma síntese que transcende classificações modernas. Para compreendê-lo adequadamente, devemos examinar como essa tradição milenar articula as ideias de ancestralidade, crença e pertencimento numa configuração singular.
Na Bíblia Hebraica, o judaísmo começa com o chamado de Deus a Abraão. Esse fato por si só posiciona a dimensão religiosa no centro do que é o judaísmo. Na fundação da tradição judaica encontra-se a ideia de um Deus único, que busca estabelecer uma relação com o povo de Israel. Os termos dessa relação encontram-se na Torá e nos entendimentos exegéticos dos seus maiores intérpretes: os rabinos.
Se, no entanto, por religião entendemos um conjunto de credos, em que a crença do indivíduo neles determina o pertencimento, o judaísmo não propõe essa sistematização. Ao longo dos séculos, essa tradição desenvolveu múltiplas interpretações sobre como honrar tal relação pactual. Desde a Bíblia Hebraica — seu texto fundador mais antigo —, o judaísmo convive naturalmente com ideias diversas e uma marcante multivocalidade textual. Essa pluralidade manifesta-se em visões distintas sobre questões centrais como, por exemplo: a natureza humana, a atuação divina no mundo e a própria dinâmica entre Deus, a humanidade e o povo de Israel.
Essa diversidade interpretativa explica por que o judaísmo nunca desenvolveu um equivalente ao Credo de Niceia, que em 325 e.c. definiu o que significava fazer parte da fé cristã e, até hoje, é recitado liturgicamente por inúmeras igrejas. O judaísmo, em contraste, não possui um credo único que delimite de forma definitiva quem pertence à tradição- o que reforça a sua natureza plural. Isso, certamente, não significa que o judaísmo não possua crenças fundadoras que formam sua identidade. Mas, apenas, que os seus adeptos possuem diferentes maneiras de entendê-las e expressá-las em suas práticas religiosas privadas e comunitárias.
Vamos agora à ideia de etnicidade, um conceito relativamente recente, com múltiplas definições nas ciências sociais. A noção de etnicidade ganhou força especialmente no período pós Segunda Guerra Mundial, quando estudiosos buscavam se afastar da categoria de “raça” — até então central em teorias e políticas discriminatórias, persecutórias e, até, genocidas. Essas ideias atingiram seu ápice ideológico e trágico nas décadas de 1930 e 1940 com a ascensão do fascismo e nazismo na Europa. O conceito de etnicidade articula elementos como: um nome comum ao grupo que permite identificação mútua; a percepção de ancestralidade compartilhada; memórias históricas coletivas; uma cultura comum (incluindo religião, celebrações, língua e costumes); vínculo com uma terra ancestral; e, finalmente, um sentimento de solidariedade e destino compartilhado.
Muitos desses elementos se aplicam ao povo judeu que historicamente se percebeu como parte de um grupo único, com ancestralidade comum remontando aos patriarcas Abraão, Isaque e Jacó. Esse grupo vivenciou experiências marcantes — construção de sociedade autônoma, conquistas, guerras e exílios — que, mesmo após a dispersão pelos mundo, mantiveram as comunidades conectadas através de celebrações, liturgia, costumes e da língua sagrada: o hebraico. O vínculo com a terra ancestral — e o anseio por sua reconstrução — permaneceu vivo na tradição textual e na liturgia diária. Por fim, todos esses elementos entrelaçados criaram um sentimento profundo de solidariedade e destino compartilhado entre as comunidades judaicas na diáspora.
A compreensão do judaísmo como grupo étnico, porém, requer nuances. Apesar de cultivar uma forte identidade de grupo desde tempos antigos, o povo judeu sempre permitiu a entrada de pessoas que não nasceram dentro da tribo. A Bíblia Hebraica registra diversos casos: Tzipora (midianita), esposa de Moisés; Tamar (possivelmente canaanita), que integrou a linhagem de Judá; e, mais celebremente, Rute (moabita), que se tornou bisavó do rei David. A própria Torá prevê que estrangeiros circuncidados poderiam participar de rituais centrais como o sacrifício realizado na celebração de Pessach (Êxodo 12:48). Diferentemente de etnias fechadas que operam numa lógica binária de pertencimento- ou a pessoa pertence ao grupo por nascimento, ou está completamente fora dele-, o judaísmo desde sua origem possuiu abertura identitária.
Mais tarde, no período rabínico — iniciado após a destruição do Segundo Templo de Jerusalém, no ano 70 EC —, os sábios do judaísmo desenvolveram uma nova possibilidade de entrada ao grupo: a conversão. Por meio de um processo que envolve estudo teórico, observância de práticas religiosas e um ritual de passagem (incluindo imersão no mikve e, para os homens, a circuncisão), tornou-se possível integrar-se ao povo judeu mesmo sem vínculos matrimoniais ou descendência direta. Assim,o judaísmo rabínico consolida uma forma singular de pertencimento: não exclusivamente étnica, nem puramente religiosa, mas construída também pela escolha e pelo compromisso.
As narrativas fundadoras bíblicas, contudo, precedem essas categorias modernas para descreverem o povo de Israel. Para compreender as origens do judaísmo, devemos examinar diretamente o livro do Gênesis, onde duas ideias simultâneas estabelecem sua base conceitual. A primeira é que Deus se dirige a um indivíduo específico — Abraão — e o comanda a deixar sua terra ancestral em direção a uma terra que Ele ainda lhe mostrará (Gênesis 12). A segunda é que Deus estabeleceu com Abraão um pacto (berit, em hebraico), prometendo-lhe essa terra e a multiplicação de sua descendência (Gênesis 15 e 17). O pacto (berit) constitui o elemento distintivo dessa tradição: uma relação voluntária e bilateral onde cada parte assume responsabilidades específicas. Israel compromete-se com mandamentos éticos e ritualísticos para construir uma sociedade justa e sagrada; Deus garante prosperidade, paz e segurança à nação.
Essa estrutura pactual esclarece a singularidade judaica. De um lado, a tradição nasce de uma família e transmite-se principalmente através de contextos familiares e comunitários — a identidade judaica forma-se quando pais ensinam aos filhos sobre seu pertencimento ancestral. De outro lado, o elemento pactual introduz a dimensão da escolha: a possibilidade de integração voluntária ao compromisso coletivo, independentemente da origem familiar.
Por que Deus escolhe precisamente Abraão para estabelecer essa relação pactual? A Torá não explica, mas as narrativas precedentes sugerem uma resposta: a conduta humana vinha frustrando sistematicamente as expectativas divinas. Adão transgride no Éden, Caim comete o primeiro fratricídio, a geração de Noé mergulha em violência desenfreada. Dez gerações depois, Deus escolhe Abraão — inaugurando uma nova estratégia para a relação com a humanidade. A quarta geração após Abraão — os filhos de Jacó — dará origem às doze tribos que formarão o povo de Israel.
Porém, nem todos os membros da família de Abraão — e nem todos os seus descendentes — farão parte do povo de Israel. Seu filho mais velho, Ismael, origina uma linhagem própria de doze filhos, que formam sua própria confederação tribal. Esaú, o primogênito de Isaque, dá origem ao povo de Edom. Amalec, neto de Esaú, será o ancestral dos amalequitas — considerados os arqui-inimigos de Israel na Torá. Já Ló, sobrinho de Abraão, torna-se o predecessor dos moabitas e dos amonitas, por meio de seus netos Moabe (neto mais velho) e Ben-Ami ( neto mais novo).
No livro do Êxodo, ocorre uma mudança significativa em relação à Gênesis. A família do patriarca Jacó — neto de Abraão — que havia se estabelecido no Egito, cresce numericamente e passa a ser vista como uma ameaça pelo Faraó. É nesse contexto que, pela primeira vez, a palavra “povo” é utilizada para se referir aos descendentes de Jacó.
Segundo a narrativa bíblica, o povo de Israel permaneceu no Egito por 430 anos. Apesar da longa duração, o texto não descreve como era a vida cotidiana dos israelitas, exceto quando o faraó os tornou escravos. Durante esse período, teriam os israelitas se aculturado, tornando-se mais semelhantes aos egípcios, ou preservaram sua identidade distinta?
Alguns textos da tradição rabínica afirmam que o povo de Israel manteve elementos fundamentais de sua identidade, como a língua, os nomes, o vestuário e a prática da circuncisão (Vaicrá Rabá 32). Outros, porém, apontam para um enfraquecimento dos vínculos com suas raízes ancestrais. Nessa linha, o filósofo medieval Maimônides, ao reconstruir a história espiritual do povo de Israel (Mishnê Torá, Hilchot Avodá Zará 1:2), afirma que o prolongado tempo no Egito levou os israelitas a práticas idólatras. Por essa razão, Deus teria instituído os cultos sacrificiais como uma etapa de transição entre o culto a deuses pagãos e o culto a Adonai.
Após uma série de tentativas de Moisés, que culminaram nas famosas pragas que afligiram os egípcios, a libertação ocorre de forma apressada. Durante esse processo de fuga, o texto bíblico menciona que uma “multidão diversa” (Êxodo 12:38) — em hebraico, erev rav — acompanhou os israelitas. Essa expressão genérica despertou a curiosidade de comentaristas ao longo dos séculos. Afinal, quem seriam essas pessoas que seguiram os israelitas?
Os comentaristas sugerem respostas distintas. Talvez essa "multidão" fosse composta por outros grupos escravizados pelos egípcios que aproveitaram a oportunidade para fugir. Ou talvez fossem estrangeiros que chegaram ao Egito no mesmo contexto que a família de Jacó, buscando alimento diante de uma escassez sem precedentes e acabaram ficando por ali. No entanto, impressionados pelos milagres, decidiram partir junto com os israelitas. Ou, ainda, essa multidão poderia ter sido formada por egípcios e egípcias que se casaram com israelitas.
Conforme relata o texto bíblico, esse grupo heterogêneo chegou ao Monte Sinai três meses após a saída do Egito. Ali, aos pés da montanha, ocorreu o momento fundador do povo de Israel: a entrega da Torá, o documento que verbaliza o pacto. Nesse momento, todo o povo de Israel — sejam os descendentes diretos de Abraão ou aqueles que decidiram integrar-se aos israelitas — aceitou coletivamente fazer parte do berit. O texto bíblico afirma explicitamente que todos os presentes aos pés da montanha disseram: “Todos estes mandamentos que Adonai falou, nós cumpriremos” (Êxodo 24:7).
O midrash — textos escritos pelos rabinos clássicos que interpretam o texto bíblico — imagina que Deus ofereceu a Torá inicialmente aos descendentes de Abraão que decidiram não fazer parte do pacto, antes de oferecê-la ao povo de Israel. Segundo o midrash, Deus primeiro ofereceu a Torá aos descendentes de Esaú. Eles perguntaram: “O que há nela?” Deus respondeu: “Não matarás.” Eles replicaram: “Nosso patriarca era um assassino.” Assim, rejeitaram a oferta. Em seguida, Deus a ofereceu aos descendentes de Amon e Moabe. Eles perguntaram: “O que há nela?” Deus respondeu: “Não cometerás adultério.” Eles responderam: “Nosso patriarca praticou relações proibidas ao se deitar com suas filhas.” Por isso, também rejeitaram a oferta. Depois, Deus ofereceu a Torá aos descendentes de Ismael, que igualmente a rejeitaram. Por fim, Deus ofereceu a Torá ao povo de Israel, que a aceitou sem hesitação.
O judaísmo, portanto, desafia classificações simples precisamente por sua complexidade constitutiva. Por ser uma tradição milenar que sobreviveu através de múltiplas transformações, articula religiosidade, ancestralidade, prática comunitária e escolha individual numa síntese única. Diferentes comunidades judaicas, por mais diversas que sejam, mantêm-se unidas pela percepção de origem comum, calendário compartilhado e corpo narrativo que produz coesão ao pertencimento através do tempo e espaço. A riqueza da tradição judaica encontra-se justamente nas suas múltiplas dimensões e como elas se manifestam na vida das diversas comunidades judaicas ao redor do mundo.
Lucca Myara é o rabino da Congregação Israelita Mineira.
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