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Por que a oferenda de gratidão (zevach toda) será a única praticada nos tempos messiânicos?

Entre os sacrifícios descritos no livro de Levítico, encontra-se o zevach toda- a oferenda oferecida para expressar gratidão. Ao contrário dos demais, que respondiam a obrigações ritualísticas específicas, o zevach toda era o único trazido espontaneamente, nascido não de um dever, mas de um sentimento. Sua forma era a de uma refeição compartilhada: a porção destinada a Deus era totalmente incinerada no altar, e o restante dividido entre quem trazia a oferenda e os sacerdotes. Uma refeição entre humanos e o divino, celebrando algo recebido como um presente.


O culto sacrificial não é praticado pelo povo judeu desde a destruição do Segundo Templo pelos romanos, no ano 70 E.C. Porém, a conexão com esses rituais nunca foi totalmente perdida. O judaísmo rabínico os ressignificou na tradição textual sem descartá-los: "Já estabeleci para eles a ordem das oferendas. Sempre que lerem essas passagens, considerarei como se tivessem oferecido um sacrifício diante de Mim, e os perdoarei por todas as suas iniquidades." (Talmud Meguila 31b). O estudo substitui o rito, mas não o apaga. Na tradição judaica vive o anseio de que um rei da dinastia de David- o ungido, o messias - reconstrua o templo, e que com ele todos os rituais descritos no Pentateuco sejam plenamente restaurados.


Porém, uma voz no Midrash discorda. Nem tudo voltará.

"Rabino Pinchas, Rabino Levi e Rabino Yochanan disseram em nome do Rabino Menachem da Gália: No futuro, todos os sacrifícios serão anulados, mas o sacrifício de agradecimento não será anulado." (Vaicrá Rabá 9:7)


Por que o sacrifício de agradecimento será o único mantido em tempos messiânicos?


A era messiânica é frequentemente imaginada como um estágio avançado de desenvolvimento moral e espiritual da humanidade. Dentro da tradição, há duas visões distintas sobre suas implicações. Uma afirma que todas as mitzvot serão anuladas (Niddah 61b, Shabbat 151b): Nachmanides (Deut. 30:6) sugere que, nessa era, o ser humano não mais será inclinado ao mal, seus atos serão naturalmente íntegros porque o mal simplesmente não será parte da essência humana. A outra visão é um retorno ao passado: as mitzvot não somente permanecerão, mas poderão ser observadas em sua totalidade com a restauração do Templo (Berachot 34b).


Entre a transformação radical e o resgate pleno, o Midrash propõe uma terceira resposta. Haverá somente uma mitzva- a oferenda de agradecimento. Ao escolher preservar precisamente esse ritual entre todos os outros, o Midrash não está fazendo uma declaração sobre a era messiânica, mas sobre o que é central na relação do ser humano com Deus: está identificando o fundamento da experiência religiosa que, em tal momento de clareza, seria evidente a todos. Esse fundamento é a gratidão.


A gratidão é o sentimento despertado quando percebemos que recebemos algo de valor inestimável. Para a tradição judaica, todo ser humano foi agraciado com ao menos um bem de valor infinito: a vida. A simples consciência de que existimos- e de que, a cada dia, renovamos essa existência até que um dia não mais - é o fundamento da gratidão. É isso que a liturgia diária expressa: "Enquanto minha alma se encontra dentro de mim, sou grato diante de Ti."


Então, por que não acordamos todos os dias nos sentindo profundamente gratos?

A gratidão é efêmera. Nosso cérebro evoluiu para detectar ameaças, não para registrar estabilidade e abundância. O que é estável, interpretamos como normalidade. Por isso, a gratidão é sentida com força em dois momentos: quando escapamos de uma situação de risco, ou quando somos surpreendidos por um gesto de bondade num momento de carência. Ambas as situações fogem do esperado. 


A tradição judaica, na contramão dos nossos instintos, afirma que dentro do normal há um componente extraordinário que não podemos perder de vista. Assumimos como esperado dimensões da nossa existência que se repetem, mas são frágeis. Basta uma pequena disrupção para que algo terrível aconteça. A vida não é óbvia. É um presente divino.


Por ser efêmera e competir com os sentimentos despertados pelas rotinas, a gratidão não pode depender apenas do momento em que é sentida. A tradição judaica propõe que ela seja nutrida com consistência: transformá-la em um hábito. Não um sentimento a ser aguardado, mas uma resposta permanente ao fato de sermos agraciados em muitas dimensões, ou ao menos em uma: a vida. 


Hábitos são práticas que queremos perpetuar ao longo do tempo, independentemente da vontade momentânea de fazê-lo. Quem se percebe como destinatário de algo extraordinário, de valor inestimável, sente o impulso de estender parte desse presente a outros. É dessa percepção que nascem os atos de bondade — guemilut chassadim — e a tzedaká, a caridade expressa na generosidade. Este é o ethos fundamental da tradição judaica: perceber-se como destinatário de uma bênção e, ao mesmo tempo, como parte do fluxo dela para o mundo.


O que continuará sendo essencial na era messiânica, quando a humanidade atingirá o apogeu do seu desenvolvimento moral e espiritual, vivendo um momento de prosperidade e paz duradoura? O Midrash responde: a gratidão. Porque quando transformada em hábito, ela não é apenas mais um valor entre outros- é o valor que permanentemente nutre a bondade, a justiça e o cuidado com o outro, fundamentos de qualquer sociedade verdadeiramente evoluída.


Lucca Myara é o rabino da Congregação Israelita Mineira.

 
 
 

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