Será Levítico o melhor livro para se começar a ensinar a Torá para as crianças?
- luccamyara
- há 5 dias
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O livro de Levítico, terceiro da Torá, dedica-se a sistematizar o culto sacrificial que ocupava lugar central na vida do povo de Israel. Parte dessas instruções é dirigida ao israelita comum- pessoas que, por razões diversas, desejavam oferecer voluntariamente uma oferenda a Adonai. Outra parte é destinada especificamente aos sacerdotes responsáveis pela condução dos rituais, funcionando como um manual de treinamento para aqueles diretamente envolvidos na prática litúrgica. Não por acaso, esse livro é conhecido na literatura rabínica como Torat Cohanim- as instruções sacerdotais. Por essas características, Levítico é, de toda a Torá, o livro de maior dificuldade de compreensão: carece de grandes narrativas e abunda em rituais que se tornaram irreconhecíveis para o judeu contemporâneo.
No entanto, existe um midrash que causa estranheza: a tradição rabínica ensina que devemos começar a instrução bíblica das crianças justamente por este livro.
Por que se começa a ensinar as crianças pelo livro de Levítico, e não por Gênesis? Porque as crianças são puras e as oferendas são puras; que os puros venham e se ocupem com aquilo que é puro. (Vayikrá Rabá 7:3).
Rav Assi reconhece que a escolha natural para iniciar o ensino da Torá às crianças seria o livro de Gênesis. Afinal, Gênesis não é apenas o primeiro livro do Pentateuco, mas também o que contém o maior número de narrativas- e nada capta melhor a atenção e a curiosidade infantil do que uma boa história. Uma segunda opção igualmente natural seria o livro do Êxodo: a narrativa da saída do Egito e o recebimento dos Dez Mandamentos no Monte Sinai são episódios fascinantes, com elementos facilmente identificáveis por qualquer criança- um vilão (Faraó), uma vítima injustiçada (o povo de Israel), um herói (Moisés) e regras claras de convivência (os Dez Mandamentos).
Por que, então, Levítico e não Gênesis- ou Êxodo?
A resposta de Rav Assi não corresponde a uma proposta pedagógica no sentido convencional. Ela se baseia no uso metafórico da palavra tehorim- "puros"- como sinônimo de ingenuidade ou inocência. Ao fazê-lo, Rav Assi cria uma analogia entre as crianças e os animais destinados ao culto sacrificial, que também precisavam satisfazer certas condições para serem considerados ritualmente puros. Vale notar que a interpretação funcionaria com igual rigor se ele tivesse empregado a palavra tamim: em hebraico rabínico, o termo significa "ingênuo"; em hebraico bíblico, quando aplicado a animais, significa "sem defeito".
Mas se levássemos a sério a proposta de Rav Assi, qual seria a ideia central de Levítico a ser transmitida às crianças em seu primeiro contato com o texto bíblico?
No centro da visão de mundo da Torá, e em particular de Levítico, encontra-se o conceito de sacralidade- em hebraico, kedusha. É o que enuncia o versículo mais célebre do livro: "Vocês deverão ser sagrados, porque Eu, Adonai, sou sagrado" (Levítico 19:2). A sacralidade é, em sua origem, um atributo inerentemente divino. No entanto, o ser humano- e em particular o povo de Israel- é chamado a reproduzir, ainda que parcialmente, essa qualidade na terra. Cultivar a kedusha é, portanto, o caminho pelo qual o ser humano se aproxima de Deus.
A kedusha pode ser cultivada em três dimensões: no tempo, no espaço e nas relações. No que diz respeito ao tempo, a Torá distingue entre ocasiões sagradas e ocasiões corriqueiras. A mais frequente delas é o Shabat, celebrado semanalmente, que possui um grau de sacralidade distinto dos demais dias da semana. Também certos espaços podem adquirir kedusha. Isso ocorre quando Deus se manifesta em um lugar específico- como, por exemplo, na sarça que ardia sem se consumir: durante a epifania, aquela terra tornou-se sagrada, perdendo essa qualidade ao término da manifestação divina.
Em Levítico, no entanto, a kedusha está longe de se restringir à celebração ritualística das ocasiões festivas ou aos momentos de epifania divina. Na tradição bíblica, justiça e compaixão também integram o significado de tornar-se sagrado- e diversas leis de Levítico refletem precisamente esses valores: deixar parte da colheita para os pobres e os estrangeiros; não roubar; não agir de forma fraudulenta; não atrasar o pagamento dos trabalhadores; não insultar o surdo nem colocar obstáculos diante do cego; ser justo em suas decisões; e amar o próximo como a si mesmo.
Apesar de a kedusha ser originalmente um conceito abstrato, ela possui implicações concretas com as quais as crianças se identificam desde muito cedo. Elas compreendem intuitivamente a diferença entre os dias da semana- aqueles com aula e aqueles sem aula- e distinguem naturalmente entre ocasiões especiais, como aniversários, e os dias corriqueiros. Sabem também que o parquinho é diferente da sala de aula, e que a mesa de jantar é diferente do banheiro. A noção de que espaços distintos requerem comportamentos e atitudes diferentes já faz parte do mundo delas. Por fim, compreendem que a base da convivência social é pautada por regras ligadas ao respeito ao outro e aos objetos que lhe pertencem-` e que o compartilhamento harmonioso do tempo e do espaço depende do reconhecimento de que o outro é, por natureza, diferente de si.
É difícil precisar qual foi a real intenção de Rav Assi com sua surpreendente afirmação. No entanto, intencionalmente ou não, ele nos convidou a perguntar o que há de fundamental nesse mundo aparentemente distante que pode ser ensinado às crianças como introdução à Torá. No interior do complexo sistema sacrificial, há uma ideia inequívoca: o mundo torna-se um pouco mais elevado quando trazemos para o nosso tempo, para o nosso espaço e para as nossas relações a sacralidade inerente a Deus.
Lucca Myara é o rabino da Congregação Israelita Mineira.
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