O que os “dez mandamentos” possuem de especial?
- luccamyara
- 16 de jun.
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O texto conhecido popularmente como os “dez mandamentos” aparece duas vezes no Pentateuco: uma no livro do Êxodo e outra em Deuteronômio. As duas versões são bastante semelhantes, mas não idênticas. A diferença mais conhecida está no mandamento do shabat: em Êxodo, o texto diz “lembre” o shabat; em Deuteronômio, “guarde” o shabat. No entanto, o que mais chama a atenção é que, em nenhuma das duas versões, o texto se apresenta como “os dez mandamentos”.
Em Êxodo 20:1, lemos: “Elohim disse todas estas palavras...”. Já em Deuteronômio 5:5, Moisés relembra o evento dizendo: “Eu estive entre vocês e Adonai naquele momento para transmitir a palavra de Adonai, pois vocês tiveram medo do fogo e não subiram ao monte..”. “Em ambos os casos, a palavra usada não é “mandamentos”— mitzvot, em hebraico — mas “palavras” ou “falas”: devarim.”
Além disso, o próprio número dessas falas nunca é explicitado, talvez pela própria dificuldade de definir o que constitui uma “fala”. Um discurso pode ser dividido de diferentes maneiras: pelo tema, pela estrutura ou mesmo pelas pausas de sua transmissão oral.
No livro de Êxodo, a expressão “10 falas” aparece pela primeira vez apenas catorze capítulos depois de serem pronunciadas por Deus: “E ele (Moisés) esteve com Adonai por quarenta dias e quarenta noites; não comeu pão nem bebeu água. E escreveu nas tábuas as palavras do pacto, as 10 falas” (Ex. 34:28). Em Deuteronômio, a expressão aparece outras duas vezes (Deut. 4:13 e 10:4). Curiosamente, ela desaparece por completo do restante da Bíblia Hebraica, não sendo utilizada em nenhum outro livro do Tanach.
O que torna essas falas diferentes das inúmeras outras falas divinas presentes no Pentateuco?
Muitas sinagogas observam o costume de se levantar no momento em que esse texto é recitado, sugerindo que há algo singular nele. Aqueles que se opõem a essa prática argumentam justamente o contrário: não haveria diferença essencial entre esses mandamentos e os demais mandamentos da Torá. A própria literatura rabínica preserva sinais dessa tensão. A Mishná (Tamid 5:1), por exemplo, descreve a prática diária dos sacerdotes de recitar os “dez mandamentos” antes do “Shema Israel”, sugerindo o caráter singular desse texto.
Êxodo 21–24, conhecido como Parashat Mishpatim, segue imediatamente o texto dos “dez mandamentos” com diversas outras mitzvot introduzidas pela frase: “E estas são as leis”. Como essas leis também foram transmitidas aos pés do monte Sinai, seria natural que o costume de se levantar durante sua leitura se estendesse a essa parashá.
Na prática, porém, isso não acontece.
Ao mesmo tempo, o conteúdo dos “dez mandamentos” não é inteiramente novo na Torá. Muitos de seus princípios já aparecem, de forma implícita ou explícita, nas narrativas de Gênesis e Êxodo. A proibição de fazer imagens, por exemplo, parece pressuposta quando Jacó ordena que sua família abandone os deuses estrangeiros antes de erguer um altar em Beit El (Gen. 35:2). O mandamento de se abster de trabalhar no shabat também é sugerido na narrativa do maná, quando os israelitas recebem a instrução de recolher uma porção dupla do alimento na sexta-feira e não coletá-lo no sábado (Ex. 16:22–23).
Outros princípios aparecem de maneira ainda mais explícita. A proibição de assassinar é formulada na narrativa de Noé: “Quem derramar sangue humano, pelo ser humano terá seu sangue derramado; pois à imagem de Deus foi feito o homem” (Gen. 9:6). Já o adultério é descrito como um “grande pecado” por Avimelech ao descobrir que Sara era esposa de Abraão (Gen. 20:9), enquanto José se recusa a ceder às investidas da esposa de Potifar (Gen. 39:9).
Se o conteúdo dos “dez mandamentos” não é novo, o que há neles de tão especial que inspirou judeus, ao longo dos séculos, a se levantarem quando esse texto é lido na sinagoga?
A resposta talvez esteja na grandiosidade da experiência do monte Sinai. Essa é a primeira vez que Deus se dirige coletivamente ao povo de Israel, e a descrição desse encontro não encontra paralelo em toda a Bíblia Hebraica. Raios, trovões, uma nuvem espessa e o som do shofar aterrorizam o povo de Israel a ponto de pedirem que Moisés intermedeie o contato com Deus (Ex. 20:16).
A intensidade da experiência parece ter sido tão avassaladora que a própria Torá passa a sugerir uma mediação crescente de Moisés. Alguns comentaristas observam que as duas primeiras falas divinas aparecem em primeira pessoa — “Eu sou Adonai, seu Deus...” — enquanto as demais passam à terceira pessoa, sugerindo que apenas o início da revelação teria sido ouvido diretamente pelo povo. Apesar da tentativa de contato direto entre Deus e o povo de Israel, a experiência parece levá-los ao limite do que o ser humano é capaz de suportar.
A experiência do monte Sinai deixou uma marca profunda na memória coletiva do povo judeu. Cada vez que esse texto é lido na sinagoga, surge o impulso de se levantar e reviver uma fração daquele momento. Talvez porque o Sinai descreva uma experiência humana rara: a sensação de estar diante de algo grande demais para ser plenamente compreendido ou suportado. Um momento capaz de despertar medo e reverência. Fragilidade e transcendência. E a permanente e difícil tarefa de transformar essa experiência em resposta aos desafios da sociedade.
Lucca Myara é o rabino da Congregação Israelita Mineira.
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