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Por que Pessach NÃO é a Páscoa Judaica?

A festa de Pessach celebra a libertação dos israelitas da escravidão no Egito. De acordo com o livro de Êxodo, na noite que antecedeu a saída dos israelitas do Egito, Moisés transmitiu ao povo o mandamento divino no qual cada família deveria separar e sacrificar um cordeiro. A carne do animal seria consumida e o seu sangue usado para marcar as portas das casas dos israelitas, distinguindo suas casas das casas dos egípcios. Essa distinção tinha uma razão: o anjo da morte precisava saber onde moravam os egípcios para lhes infligir a décima e mais severa praga: a morte dos primogênitos. 


O ritual de sacrifício do cordeiro e consumo de sua carne é chamado de "Pessach". Já a Páscoa, festa religiosa cristã que celebra a ressurreição de Jesus, não possui nenhuma relação com a festa de Pessach, exceto pela época do calendário em que ocorrem. Nos evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), os acontecimentos que antecedem e culminam com a morte de Jesus se passam durante Pessach. No evangelho de João, ocorrem imediatamente antes dessa festa. 


Não havendo nenhuma relação temática entre as duas festividades, seria "Páscoa" uma boa tradução para "Pessach"? 


A raiz da palavra Pessach (Pe-SSa-CH / פסח) aparece diversas vezes na Bíblia Hebraica, apresentando dois significados distintos: "proteger" e "pular". Isaías (31:5), por exemplo, diz: "Da mesma forma que os pássaros que voam, Adonai defenderá Jerusalém, acudindo e salvando, protegendo (Pa-SS-oa-CH) e salvando". Já no livro de Reis 1 (18:21), no embate entre o profeta Eliahu  e os profetas de Baal, o profeta do povo de Israel pergunta ao seu povo: " [...] até quando vocês continuarão pulando ( Po-SS- CHim) de opinião? Se Adonai é o seu Deus, sigam-o. Se é Baal, sigam-o!". 


O fenômeno no qual duas palavras ou raízes com escritas e sons idênticos apresentam significados distintos é conhecido pelos linguistas como homonímia ou, popularmente, "falsos amigos". Na realidade, são duas palavras que aparentam ser a mesma, mas que têm origens distintas. Na língua portuguesa, o exemplo clássico de homonímia é a palavra manga, que pode se referir à "fruta" ou à "camisa". No entanto, o sentido mais conhecido para o público amplo é o de "pular", como na tradução para o inglês "passover" ou "passar por cima". Provavelmente, isso se dá pelo fato de Rashi, o mais famoso comentarista do Pentateuco, ter popularizado a tradução "pular" em seu comentário (Êxodo 12:13)


E qual é a origem da palavra Páscoa?  Segundo o professor de Harvard, Shaye Cohen, a única relação entre as palavras "Pessach" e "Páscoa" é que elas são foneticamente parecidas. Não chegam a ser homonímias perfeitas entre línguas distintas, mas são suficientemente similares para causar a confusão. A palavra Páscoa tem origem na palavra grega "Pascha" que significa "sofrimento", ou, na tradução latina "paixão", coerente com a principal mensagem da Bíblia Cristã que culmina com a morte de Jesus: pelo seu sofrimento, Jesus expia os pecados da humanidade (João 1:29).


Se não há afinidade temática, e tampouco “Páscoa” é a tradução para “Pessach”, como podemos traduzir  Pessach para o portugês? Dizer que Pessach é a Páscoa Judaica é incorreto, tanto sob o aspecto linguístico como temático,  e subordina a festividade judaica à narrativa e aos simbolismos da tradição cristã. Ao mesmo tempo, traduzir Pessach como a festa da "proteção" ou do "salto" parece demandar um complemento sobre o significado dessas palavras na história do êxodo. A tradução mais adequada, e relativamente popular, foi oferecida há muitos séculos pelos rabinos clássicos: Pessach é a festa da liberdade, zman cherutenu. 

 
 
 

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