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Qual é a melhor tradução do primeiro versículo do livro de Gênesis?

“No princípio, Deus criou o céu e a terra” - O primeiro versículo de Gênesis talvez seja o mais conhecido de toda a Bíblia Hebraica. No entanto, essa tradução está longe de expressar  a riqueza sintática do versículo na língua original-  o hebraico.  Qual seria então a melhor tradução e como ela nos ajudaria a entender melhor o texto da criação? 


Uma das traduções mais famosas do texto bíblico para língua inglesa foi realizada pelo Rei James I da Inglaterra.  Na realidade, não foi ele mesmo que a fez a tradução, mas contratou um grupo de estudiosos em 1604 para realizá-la. Essa tradução conhecida como “King James Bible” ganhou popularidade tornando-se a referência no mundo protestante. Muitas traduções que se seguiram em outras línguas se inspiraram nesse texto.  Na versão do King James o primeiro versículo de Gênesis é traduzido como “ No princípio, Deus criou o céu e a terra”. Apesar de não ter sido o primeiro a usar essa formulação, certamente foi ele quem a tornou popular. Essa formulação assume que a criação do céu e da terra é o começo absoluto do mundo físico e natural. Antes não havia nada e, a partir da iniciativa divina, o  nada começa a ser preenchido.


O texto continua, dizendo: 'A terra era sem forma e vazia, e havia trevas sobre a face do abismo. E o espírito de Deus se movia sobre a face das águas'. E conclui:  E Deus disse: Haja luz, e houve luz’. Essa tradução organiza os momentos iniciais da criação em 3 partes:  A primeira- criação do céu e da terra. A segunda-  descrição do estado da criação. E a terceira- a criação da luz.


A tradução feita pelo King James teve um impacto profundo nos séculos que se seguiram influenciando outras traduções do mundo cristão. Por exemplo, “A Nova Bíblia Católica”  e   “Versão Herança Evangélica” traduzem esses três primeiros versículos de forma idêntica. Acompanhando essa tendência, em língua portuguesa, as traduções cristãs como  a Bíblia de Jerusalém e a Bíblia traduzida por João Ferreira Almeida, também traduzem dessa maneira. A tradução judaica da Bíblia Hebraica feita pela editora Sêfer, apresenta uma tradução levemente diferente: 'No princípio, ao criar Deus os céus e a terra....". No entanto, não há  grande impacto no significado transmitido ao leitor.


O que o todas essas traduções têm em comum? Elas transmitem ao leitor a ideia de que  antes da criação não havia nada, e portanto, ela é o começo de tudo.


Quando olhamos o texto original em hebraico, ele revela uma dificuldade sintática não levada em consideração por essas traduções. A palavra “bereshit” que foi traduzida como “No princípio”, na realidade significa  “no princípio de”. Essa palavra é seguida por um verbo- “bara” que foi traduzido como “criou”  e o sujeito desse verbo é “Elohim” - traduzido, precisamente como “Deus”.  Ao juntarmos esses pedaços, a frase não faz sentido- “No princípio de, criou Deus..”  Ao que tudo indica, está faltando um complemento depois da expressão “No princípio de”. 


A ausência desse complemento torna-se ainda mais chamativa quando olhamos outros exemplos na Bíblia Hebraica em que a expressão “No princípio de”  segue acompanhada de um substantivo. Por exemplo, em Gênesis 10: 10 temos:  E o princípio do seu reino foi Babel…”. Em Deuteronômio 18:4, temos: ‘E o princípio do seus grãos. E em Jeremias 26:1, temos: No princípio do seu reinado do rei Joaquim…”.  Por que o primeiro versículo em Gênesis aparenta ser a exceção à regra? 


Essa dificuldade no texto, como era de se esperar,  não passou despercebida por Rashi, o maior comentarista do texto Bíblico. Ele argumenta que o  verbo “bara”- criou- deve ser revocalizado para "beró”, a sua forma infinitiva, ou seja, criar. Em hebraico bíblico, pode acontecer de um verbo na forma infinitiva funcionar como um substantivo. Um exemplo disso, pode ser encontrado no livro de Samuel 1 15:22: ".... a obediência é melhor do que um sacrifício. No texto original o substantivo obediência é na realidade um verbo na forma infinitiva- “shemoa”.


Para fundamentar  seu argumento, Rashi encontra um versículo  em que o mesmo  fenômeno acontece. Em Oséias 1:2, temos a seguinte expressão: “No começo da fala de Deus para Oséias. No entanto, no hebraico original o que se segue é a expressão “No começo de…” também é um verbo conjugado- “diber”- que significa “falou”. É claro que a frase não faz sentido quando traduzida literalmente:” No começo de falou...".  Da mesma maneira, Rashi resolve o problema dizendo que o verbo precisa ser revocalizado para a sua forma infinitiva de modo que ele possa funcionar como um substantivo. Com isso temos, “ No começo da fala de Deus para Oséias.  Agora Rashi pode traduzir o primeiro versículo de Gênesis  respondendo à altura do desafio gramatical: “No princípio da criação do céu e da terra…”


Uma outra possibilidade de tradução mantendo-se fiel ao hebraico, é entender a expressão "bereshit”- “No princípio de…” não como uma locução adverbial de tempo, mas como introduzindo uma oração adverbial de tempo. Nesse caso, a frase ficaria assim: “Quando Deus começou a criar o céu e a terra…”. Em ambas as possibilidades de tradução, a frase não pode terminar no final do primeiro versículo logo  depois do substantivo terra, como acontece nas traduções do King James e suas derivações. Essa frase necessita de uma complemento que será dado pelos próximos versículos.


O versículo que se segue também possui uma estrutura sintática não usual no texto em hebraico. Em hebraico bíblico, diferentemente do português, a ordem direta da língua se dá primeiro apresentando-se o verbo e depois o  sujeito. Acontece que nesse versículo temos justamente o contrário: primeiro o sujeito e depois o verbo. Para os tradutores desatentos a essa nuance, há uma armadilha. Tanto no inglês quanto no português, a ordem direta da língua consiste no sujeito aparecer primeiro seguido do verbo. Dessa maneira, soa muito natural em ambas as línguas simplesmente seguir a ordem em que as palavras do hebraico aparecem: “ E a terra  era  sem forma e vazia, e havia escuridão sobre a face do abismo e o espírito de Deus pairava sobre as águas”.  No entanto,  em hebraico bíblico, quando o sujeito precede o verbo na sua forma perfeita, como é o caso, ele indica uma ação anterior a outra ação no passado. Sendo assim, em língua portuguesa, o tempo verbal que melhor expressa esse sentido é o pretérito mais que perfeito.


Juntando todos esses pedaços, percebe-se que na verdade os 3 primeiros versículos formam uma única e longa frase que seria:

1) No princípio da criação de Deus do céu e da terra, 2) quando a terra fora amorfa e a escuridão estivera presente na face do abismo, e o vento de Deus pairara sobre a água, 3) Deus disse: ‘haja luz, e houve luz.'

Ou alternativamente:

2) Quando Deus começou a criar o céu e a terra, 2) a terra fora amorfa e a escuridão estivera presente na face do abismo, e o vento de Deus pairara sobre a água, 3) Deus disse: ‘haja luz, e houve luz.’


Agora que traduzimos precisamente, podemos perguntar: Qual é a diferença que essa forma de traduzir faz no sentido do texto? 

As traduções do  King James bem como as de Almeida da Sêfer sugerem que a história da criação contada em Gênesis é o começo de absolutamente tudo. Antes de Deus iniciar esse processo, não havia nada. A partir de então, Deus progressivamente preenche o mundo com vida.


No entanto, pela tradução sugerida por Rashi, entende-se  que já havia matéria antes da criação  começar.  A terra, a escuridão, o abismo e a água no estado de desorganização são elementos que o texto assume como preexistentes. 


Como era o mundo antes dessa organização? Sabemos que no segundo dia, Deus realiza a separação das águas, criando um espaço entre as águas de cima- o céu- e as águas de baixo o oceano . Com isso, fica claro  que o mundo antes da intervenção divina está sendo imaginado  como um oceano escuro tempestuoso. O “vento de Deus” pairando sobre as águas sugere que Deus se impõe sobre essa força ameaçadora do oceano e o apazigua. A partir disso, a vida começa a ser possível.


A sintaxe conturbada dos três primeiros versículos da Bíblia Hebraica chama ainda mais a atenção quando comparada com o resto do capítulo. Gênesis 1 destaca-se pelo estilo literário simétrico e previsível. Por exemplo, cada novo elemento da criação é introduzido pela fórmula “ E disse Elohim: que…e foi…” e cada dia termina com a expressão “ E foi noite e foi dia…".


Além disso, os seis dias se organizam harmonicamente e em dois grupos que se complementam. No primeiro dia , por exemplo,  a luz é criada.  Já no quarto dia, são os astros que iluminam o dia e a noite. No segundo dia, as águas são separadas, criando espaço para que as aves e animais aquáticos sejam criados no quinto dia. No terceiro dia, a terra seca e as suas plantas frutíferas são criadas, possibilitando que os animais terrestres e o ser humano sejam criados no sexto dia.


Por fim, o sétimo dia é aquele em que Deus cessa o trabalho criativo. Ele representa a completude e o estabelecimento da ordem natural  que permite a vida. O professor Cassuto notou que o número sete  e seus múltiplos estão presentes ao longo de todo o capítulo 1.  Por exemplo, o nome de Deus, “Elohim”, aparece 35 vezes, o substantivo “céu” aparece 21 vezes; e "terra” 35 vezes e “bom” 7 vezes. As raízes das palavras “animal”, “ave” e “animais rastejantes” são usadas 7  vezes  no quinto e sexto dia da criação. 


A pergunta então é:  Como essas repetições nos ajudam a perceber o texto?  O contraste da sintaxe convoluta dos primeiros versículos para a estrutura simétrica, previsível e harmônica do resto do capítulo nos possibilita participar da transição do caos para a ordem, através da própria organização do texto. 


Essa análise cuidadosa  dos primeiros versículos de Gênesis nos permite concluir que a intenção do texto não é descrever o começo absoluto de tudo como sugerem diversas traduções relevantes da Bíblia Hebraica. Mas apresentar Deus como Aquele que domina as forças do caos e impõe a ordem sobre o universo indomável. A ordem é fundamental para que  a vida seja criada, nutrida e proliferada. Uma vez que a ordem esteja estabelecida, e o caos não mais seja uma força exógena, o texto bíblico se voltará para a natureza humana. Essa sim, frequentemente indomável, frustrará as expectativas divinas, criando disrupções na ordem e reacendendo momentos de caos na criação. 


Lucca Myara é o rabino da Congregação Israelita Mineira.

 
 
 

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