top of page

Qual é o significado da árvore do conhecimento o bem e do mal?

A Bíblia Hebraica começa descrevendo a imposição da ordem sobre o caos por Deus. Em Gênesis, ordenar significa diferenciar e criar separações. Nos seis primeiros dias da criação, o mundo físico é organizado em domínios distintos: luz e escuridão; céus e mar; mar e terra; sol e lua; animais aquáticos, aves e animais terrestres; seres humanos e outros animais. No capítulo seguinte, o mundo físico é descrito como um grande jardim repleto de belas árvores "agradáveis aos olhos" e "apropriadas para o consumo" (Gn 2:9). Exceto que duas dessas árvores — as árvores da vida e do conhecimento do bem e do mal — são destacadas como especiais.


No primeiro momento da história (Gn 2:17), Deus explicitamente proíbe Adão de consumir da árvore do conhecimento do bem e do mal, e diz que a punição para a violação desse comando será a morte. O texto não expande o significado da árvore do conhecimento do bem e do mal, nem tampouco explicita o que quer dizer o castigo ser a morte. Conforme a própria história mostra, a morte não significa que eles comerão do fruto e cairão sem vida imediatamente. O que está claro é que, por alguma razão, a árvore do conhecimento do bem e do mal não está disponível ao ser humano e que o seu consumo proverá algo à humanidade que Deus não quer que ela tenha acesso. Ao comer do fruto, o ser humano se tornará como Deus: "conhecedor do bem e do mal".


Muitos intérpretes clássicos da tradição judaica entenderam a árvore do conhecimento do bem e do mal como sendo a fonte do conhecimento moral. Nachmânides, por exemplo, define a realidade de Adão e Eva antes de comerem do fruto como o "estado natural". Nesse momento da humanidade, o ser humano agia inteiramente por instinto, assim como as outras espécies de animais do planeta. Ao comerem do fruto, segundo ele, nasce o desejo. Esse, por sua vez, produz escolhas que podem ser para o bem ou para o mal.


No entanto, se, de fato, a árvore do conhecimento do bem e do mal fosse a fonte do desejo e da escolha, o mandamento divino dirigido a Adão de não comer especificamente dessa árvore não teria feito o menor sentido a ele. Isso porque o próprio entendimento de uma proibição pressupõe o conhecimento de que violá-la é errado. Eva, por sua vez, não havia sido criada quando Deus comandou a Adão a não comer da árvore especial do Jardim do Éden e, portanto, não recebeu a proibição diretamente de Deus.


Talvez seja justamente por não ter recebido a ordem diretamente que a serpente a aborda primeiro. Eva demonstra ciência da proibição divina, o que nos leva a crer que Adão a informou sobre a restrição. No entanto, a serpente contradiz as palavras divinas dizendo que eles não morrerão ao comer da árvore do bem e do mal, mas sim que "seus olhos se abrirão", tornando-se como Deus, conhecedores do bem e do mal. Nessas trocas, fica evidente a plena consciência de Eva de que comer do fruto era errado, e a astuta manipulação da serpente só é possível por conta desse conhecimento moral antes do consumo do fruto.


Outros comentaristas, como Ibn Ezra, sugeriram o significado da árvore do conhecimento do bem e do mal a partir da primeira consequência sofrida depois de terem comido do seu fruto: Adão e Eva se percebem nus. Deduzem, portanto, que a árvore do conhecimento do bem e do mal é a fonte do conhecimento sexual. Em favor dessa interpretação, o texto bíblico usa a mesma raiz hebraica do verbo "conhecer" para designar a árvore do conhecimento do bem e do mal, a consciência da nudez -"E conheceram (tiveram consciência) que estavam nus" (Gn 3:7) - e como eufemismo para relações sexuais, como por exemplo: "Adão conheceu Eva, sua esposa; ela concebeu e deu à luz Caim" (Gn 4:1). Com isso, Ibn Ezra está diferenciando entre as espécies do mundo natural, que simplesmente procriam por instinto, e o ser humano que, ao comer do fruto, adquire a consciência da sexualidade.


Essa interpretação de Ibn Ezra, no entanto, apresenta um problema. Após comerem do fruto, Deus diz que Adão e Eva se tornaram como Ele, "conhecendo o bem e o mal" (Gn 3:22). Se a interpretação de Ibn Ezra estivesse correta, Deus e os seres humanos compartilhariam a característica do desejo sexual e da procriação, o que certamente não é uma qualidade divina na Bíblia Hebraica. O Deus da Bíblia Hebraica se diferencia radicalmente dos seres humanos e dos deuses pagãos justamente porque Ele nunca nasceu, não procria, não dá à luz e não morre.


Os primeiros capítulos da Bíblia Hebraica descrevem o ser humano como parte do mundo natural criado por Deus e, ao mesmo tempo, como possuindo qualidades que o diferenciam dos outros animais. Em Gênesis 1, por exemplo, o ser humano é criado no sexto dia, o ápice da criação. Tudo o que foi criado antes - a luz, os mares, a terra, os astros, a vegetação e os animais -foi constituído para possibilitar a criação do ser humano. O ser humano, por sua vez, é descrito como tendo sido criado "à imagem e semelhança" de Deus e é posicionado no topo da cadeia natural, tendo domínio e autoridade sobre os outros animais. Essa preeminência sobre as outras espécies é expressa novamente quando Deus traz os animais para serem nomeados por Adão, e uma companhia adequada a ele não é encontrada. Sendo assim, em que aspecto exatamente o consumo do fruto da árvore do bem e do mal faria do ser humano como Deus? Afinal, o ser humano já possui qualidades que o diferenciam claramente dos outros animais e é explicitamente criado com algo em comum com Deus.


A expressão "conhecer o bem e o mal" aparece uma única outra vez na Torá, no livro de Deuteronômio (1:39). Nessa passagem, Moisés reconta o episódio dos espiões, quando homens são enviados à terra de Israel para uma missão de reconhecimento. Ao retornarem, eles desencorajam o povo a seguir adiante, desencadeando uma rebelião contra Moisés. A consequência desse acontecimento é que Deus determina que a geração que saiu do Egito não será a geração que entrará na terra de Israel. O versículo diz: "Os seus filhos, que vocês disseram que seriam levados como cativos, os seus filhos que ainda não conhecem o bem e o mal, esses entrarão nela; eu a darei a eles, e eles a possuirão." Nessa passagem fica claro que as crianças não sofreriam a mesma consequência dos seus pais - a de não entrar na terra- por não serem responsáveis pelos atos deles. Assim, neste contexto, "conhecer o bem e o mal" está relacionado à capacidade de tomar decisões de forma independente dos pais e ser inteiramente responsável por elas.


Da mesma maneira, em Gênesis a árvore do conhecimento do bem e do mal confere ao ser humano a capacidade de tomar decisões de forma independente de Deus. Com isso, o ser humano assume os riscos das realidade que criará para si próprio e as suas consequências.  O Éden é um lugar protegido, onde a  comida é abundante e a presença de Deus é sentida. A expulsão do Éden, inicia uma outra etapa:  a necessidade do ser humano de prover para si através da agricultura, de lidar com as incertezas e ameaças do mundo e,  com o distanciamento parcial de Deus da realidade.   O ser humano  ao comer do fruto da árvore do bem e e do mal “tornar-se como Deus” no sentido de que esse nível de autonomia  e protagonismo na realidade como criador e, potencialmente como destruidor dela , somente é compartilhado com Deus. 


A mudança de status é externalizada no texto bíblico pela nova auto percepção de que Adão e Eva estavam nus. O que essa mudança significa? Antes de comerem do fruto, eles estavam inseridos dentro da realidade criada por Deus e não se percebiam separados dela. Ao comerem do fruto, e ao “se abrirem os olhos deles”, eles adquirem a perspectiva de sujeitos que compreendem a realidade, ainda que imperfeitamente, sob a ótica do Criador. A consciência da nudez, portanto, é símbolo de uma mudança de status do ser humano em relação a Deus e à criação.


De fato, a expulsão do Éden inicia uma nova era da humanidade. As histórias que se sucedem exploram diversas facetas do significado dessa autonomia adquirida independentemente de Deus. Em seguida, o ser humano descobre também sua capacidade de tirar a vida de outro ser humano, quando Caim mata seu irmão Abel. O clímax se dá na história de Noé, quando Deus percebe a humanidade descontroladamente violenta e corrupta e decide destruir toda a criação para recomeçá-la com esse personagem que é descrito como "justo na sua geração". Tornar-se "como Deus" implica, portanto, potencialmente, o poder de fazer um bem imenso à criação como nenhuma outra espécie — mas a outra face desse mesmo poder é justamente o contrário: a capacidade de corromper o mundo que Deus criou. Em última análise, a árvore do conhecimento do bem e do mal não designa a origem da ética ou da sexualidade, mas o limiar entre a dependência de Deus e a autonomia humana, inaugurando a condição na qual o ser humano se torna, de fato, co-criador da criação — para o bem ou para o mal.


Lucca Myara é o rabino da Congregação Israelita Mineira.

 
 
 

Posts recentes

Ver tudo

Comentários


bottom of page